quarta-feira, 23 de abril de 2008

CONSTRUÇÃO DE NOVAS PERCEPÇÕES



A ARTE DO AGORA

Sânzia Pinheiro*


A ARTE DO AGORASânzia Pinheiro* A arte de uma civilização reflete e se sintoniza com a percepção de mundo da sua época. As obras de arte são criadas por um processo mental, no qual o autor reconstrói o mundo percebido num espaço simbólico, refletindo percepções de mundo, dando ênfase e significado a diversas propriedades visuais e táteis.


Nos primeiros vinte anos do século XX a arte ocidental viu a janela da tela se abrir e, aterrorizada, percebeu que nada havia. Os artistas fazem o fundo da tela avançar em direção a primeira linha até jogar o objeto para fora da tela. Porém a busca não para aí, como não parou a tecnologia e a ciência. Os artistas continuam a romper com aquilo que a Renascença chamou de arte.


A bifurcação na arte é elemento reagente do tumultuado e inusitado século XX. Ela faz sintonia com a nova aliança que o homem quer fazer com a natureza. Essa intenção se expressa em um dizer da artista Ligia Clark: “Demolir o plano como suporte da expressão e tomar consciência da unidade como um todo orgânico. Nós somos um todo, e agora chegou o momento de reunir todos os fragmentos do caleidoscópio onde a idéia de homem estava partida em pedaços”. Talvez possa afirmar aqui que o Dadaísmo, o mais radical dos movimentos de arte, foi a primeira formulação, no século XX, da cosmologia que a arte contemporânea necessita.


No Rio Grande do Norte um momento de radicalidade se fez nos anos 80 com o “Grupo Oxente de Intervenção Ambiental”. Os artistas norte-rio-grandenses Sayonara Pinheiro e Guaraci Gabriel, em 1987, (além de Guaraci e Sayonara participavam Cícero Cunha e Civone Medeiros) realizam intervenções na cidade do Natal. O “Oxente”, assim como o movimento do Poema Processo, é divisor de águas na história das artes plásticas do Rio Grande do Norte. Se o Poema Processo foi uma ruptura na tradição da feitura poética do Estado, o “Oxente” vem romper com a tradição da pintura de cavalete, transformando meros estacionamentos de carros em verdadeiras obras de arte ao captar as formas do ambiente e ressaltá-las com simples pinceladas.


Como finos bricoleurs, os artistas poetizam resíduos de concretos em um bailado, no bairro da Ribeira. Realizavam intervenções no panorama cultural e espacial da cidade. Eram obras coletivas, numa tentativa de expandir o circuito da arte e a própria noção de obra de arte. A intenção era recuperar a qualidade subversiva do gesto artístico. Esses potiguares se sintonizam com um movimento nacional, pois nos 70 e 80 surge em São Paulo uma série de grupos de artistas como o “Manga Rosa”, “3nós3” e “Viajou sem passaporte” no espaço urbano e cultural da cidade.


A produção contemporânea de arte tem se movimentado no sentido de criar alternativas à esfera institucional. Essas alternativas são viabilizadas através de grupos de artistas. Fernando Cochiarale, mapeou no início de 2003 no restante do Brasil, 40 grupos de artistas que possuem as mesmas características do “Oxente”.


São pessoas que se juntam para fazer algo sem um compromisso ou princípio de base, o acordo é viabilizar uma idéia, podendo o grupo continuar ou não.
É com esse espírito que o “Oxente” emerge. Em entrevista concedida a Anchieta Fernandes, no jornal O Galo, de junho de 1989, Civone, Guaraci, Sayonara e Cícero, dizem que querem ressignificar o conceito de grupo, pois não se fechava em componentes. Quem é Oxente? É um monte de gente que têm as idéias parecidas, soltas aqui nesta cidade, e que sozinhas não seriam nada. O grupo era uma necessidade de um ponto para várias pessoas se movimentarem, apresentar suas idéias. O nome veio de uma expressão utilizada pelas pessoas que viam o trabalho: - Oxente, que diabo é isso?
Foram muitas as intervenções do “Oxente”. Instalação na Cidade da Criança, por ocasião de um dos festivais de arte promovido pela Fundação José Augusto; intervenções em um dos casarões antigos de Natal, na Bienal de São Paulo, de 1990; no Arco da Lapa, no Rio de Janeiro; no calçadão da João Pessoa, entre outras. Nas palavras de Dácio Galvão eram: “reinventores da beleza que fortaleciam a vanguarda norte-rio-grandense”. Entretanto, quando perguntados por Anchieta Fernandes, se eram vanguarda, respondem: nada de vanguarda, de pós-moderno. Não existe este negócio, estar à frente. Porque o que é aqui, pode não ser ali ou acolá. O que é lá já não é aqui. (...) o que existe é uma seqüência do que foi, vai sendo a visão da gente (...) seria apenas uma transformação. Quem vai interpretando, já vê de uma outra forma do que quem já viu antes. Por questão de ética do momento.


Porém, a contemporaneidade é o ocaso, o grupo se desfez e cada um seguiu o seu caminho. Sayonara Pinheiro vai para Bruxelas, onde faz academia de Belas Artes e Guaraci Gabriel continua com intervenções na esquina do Brasil, como ele mesmo costuma dizer. Porém ambos continuam usando o espaço urbano para expor seus trabalhos. Cícero Cunha toma a vereda da filosofi a e Civone Medeiros vai para Áustria.


Os artistas Guaraci e Sayonara são vizinhos do conceitualismo. Desenvolvem novos métodos para dar forma às idéias em termos visuais, e isso partindo de elementos que proclamam a complexidade da vida. O espaço onde a obra será exibida participa da obra num conjugar-se com o ambiente. Podemos citar, como exemplo, as duas obras que levam para a 3ª Bienal do Mercosul, em outubro de 2001, Guaraci com a “Flor”, uma escultura que esteve exposta na ponte do Igapó e Sayonara com a instalação “De Fios e de Teias”.São pessoas que se juntam para fazer algo sem um compromisso ou princípio de base, o acordo é viabilizar uma idéia, podendo o grupo continuar ou não.


É com esse espírito que o “Oxente” emerge. Em entrevista concedida a Anchieta Fernandes, no jornal O Galo, de junho de 1989, Civone, Guaraci, Sayonara e Cícero, dizem que querem ressignificar o conceito de grupo, pois não se fechava em componentes. Quem é Oxente? É um monte de gente que têm as idéias parecidas, soltas aqui nesta cidade, e que sozinhas não seriam nada. O grupo era uma necessidade de um ponto para várias pessoas se movimentarem, apresentar suas idéias. O nome veio de uma expressão utilizada pelas pessoas que viam o trabalho: - Oxente, que diabo é isso?


Foram muitas as intervenções do “Oxente”. Instalação na Cidade da Criança, por ocasião de um dos festivais de arte promovido pela Fundação José Augusto; intervenções em um dos casarões antigos de Natal, na Bienal de São Paulo, de 1990; no Arco da Lapa, no Rio de Janeiro; no calçadão da João Pessoa, entre outras. Nas palavras de Dácio Galvão eram: “reinventores da beleza que fortaleciam a vanguarda norte-rio-grandense”. Entretanto, quando perguntados por Anchieta Fernandes, se eram vanguarda, respondem: nada de vanguarda, de pós-moderno. Não existe este negócio, estar à frente. Porque o que é aqui, pode não ser ali ou acolá. O que é lá já não é aqui. (...) o que existe é uma seqüência do que foi, vai sendo a visão da gente (...) seria apenas uma transformação. Quem vai interpretando, já vê de uma outra forma do que quem já viu antes. Por questão de ética do momento.
Porém, a contemporaneidade é o ocaso, o grupo se desfez e cada um seguiu o seu caminho. Sayonara Pinheiro vai para Bruxelas, onde faz academia de Belas Artes e Guaraci Gabriel continua com intervenções na esquina do Brasil, como ele mesmo costuma dizer. Porém ambos continuam usando o espaço urbano para expor seus trabalhos. Cícero Cunha toma a vereda da filosofi a e Civone Medeiros vai para Áustria.
Os artistas Guaraci e Sayonara são vizinhos do conceitualismo. Desenvolvem novos métodos para dar forma às idéias em termos visuais, e isso partindo de elementos que proclamam a complexidade da vida. O espaço onde a obra será exibida participa da obra num conjugar-se com o ambiente. Podemos citar, como exemplo, as duas obras que levam para a 3ª Bienal do Mercosul, em outubro de 2001, Guaraci com a “Flor”, uma escultura que esteve exposta na ponte do Igapó e Sayonara com a instalação “De Fios e de Teias”.


As flores de vida breve afi rmam a mutação e o constante na natureza, nunca as mesmas flores, mas sempre a primavera. Podemos pensar que a flor que conhecemos na natureza retrata a fragilidade da vida. A flor de Guaraci é de metal, o artista tem dez flores expostas no Hotel Pirâmide, de aço inox. Podemos refletir a partir dessa obra o poder de vida que a ocidentalidade construiu, aprisionando Thánatos, a partir da ciência, da higienização e da tecnologia.
Na instalação de Sayonara Pinheiro “De fios e de Teias” temos projeção de slides sobre o papel distribuído harmonicamente no espaço. Essa obra realiza a idéia de sistema dinâmico, pois depois que o observador passa o movimento dos papéis não volta a situação precedente. Sayonara usa nesta instalação a sua mais significante invenção. Para Bill Lundberg, artista de vídeo instalação - Texas/USA, a artista inventou um filme sem filme.


São fibras de vegetais que substituem a película do filme. As projeções são de dois tipos: a invenção da artista e fotografias da fotógrafa Candinha Bezerra. A primeira versão foi exposta em La Corunã – Espanha - no IV Congresso Hispano-Americano de Semiótica em 1999, e a segunda em julho de 2001, em Natal, no Espaço Cultural Casa da Ribeira.


A preocupação de mexer com a percepção de mundo do observador/fluidor está presente em todas as obras dos dois artistas no sentido de fazer com que as pessoas parem, saíam de seu automatismo, isso se faz presente em suas construções, como em suas vidas. Heidegger fala de uma simbiose entre a origem do artista e a origem da obra de arte. Um gera o outro num único processo de criação. Pois o artista é o que é através da obra. A obra é entre outras coisas, expressão do espírito do artista, suas percepções de mundo, interpretações, sinapses estão expostas na obra.


As obras de Guaraci Gabriel são marcadas pelo monumental. Trabalha com sucata, transformando em arte os resíduos da sociedade pós-industrial. Realizando, assim, o seu espírito bricoleur. Performático por natureza, possuidor de um humor ímpar. Ao olhar para a figura de Guaraci se vê um senhor de barba grisalha, muito sério. Mas basta um segundo para se perceber que o que parece não é, pois traz na sua genética o espírito contemporâneo do vir-a-ser.


Treze anos depois de caminhar na estrada que tudo liga, Sayonara Pinheiro experimenta as telas em uma técnica criada por ela, não são pinceladas que resultam do movimento de seu corpo, toma emprestado a face da natureza para com ela inscrever suas obras. Para Maria da Conceição Almeida, Nara, como costuma assinar suas obra, é uma “artista singela, leve, suave, mas também selvagem, arisca e rebelde.” O pensador Edgar Morin, conferencista, se maravilha diante da instalação Trans-Forma e afirma que “Sayonara diz com arte o que eu só consigo dizer com palavras”. Nessa obra, cria uma imagem que diz da idéia de calor cultural. E a atuação da artista no cenário da política cultural da cidade não é neutra, pois a mesma faz questão de tomar posição.
O espírito do artista contemporâneo é aquele que contempla vivamente a crise do Ser, expondo a necessidade urgente de compreender que agente se tece. Necessitamos um do outro para Ser. Talvez isso justifique a emergência de tantos grupos no Brasil e no mundo, pessoas que se juntam para fazer arte, viabilizar a invenção, construir novas percepções contribuindo na transformação da cosmologia mamífera humana.


* Professora do Departamento de Educação/UFRN e pesquisadora do GRECOM (Grupo de Estudos em Complexidade).


Fonte: Revista Preá (www.fja.rn.gov.br/pg_revistaprea.asp).

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